terça-feira, 25 de agosto de 2009

A Reza

Muito tempo se passou, desde o dia da ‘Festa’. A menina parecia crescida, pelo menos era o que aparentava. Mas a casa continuava ali, com sua porta fechada. Da mulher não se tinha mais notícias, deve está fechando portas pela vida.

Outras vidas vieram habitar àquela casa. Vidas mais felizes. Portas eram abertas. A rua, com o tempo, é que começou a deixar de ser lar. As árvores que a menina subia, caíram e deram lugar a muros altos, muito altos. Não se queria mais ser com o outro, salvo alguns que teimavam e não temiam o encontro.

A atual moradora da antiga casa era uma dessas pessoas destemidas. Deixava a porta aberta. Esperava sempre com um sorriso, o encontro. Era rezadeira. Diziam que com sua reza, não curava somente o corpo, curava a alma.

A menina sempre a via de longe, pois com o tempo, ela, a menina, passou a esquivar-se da calçada da casa. As lembranças ainda doíam em algum lugar d’alma. Não sabia, a menina, que sua história com aquela casa não se tinha terminado.

E nessas voltas que a vida dá, a menina, como na canção que cantava, deu meia volta, volta e meia deu e, deparou-se com a ironia, de que naquela casa se encontrava a cura para sua filha, para sua vida.

Precisou levar sua filha para uma reza, e a única rezadeira pelas redondezas, era a atual moradora da antiga casa. Foi aí, sem perceber, que a menina começou a curar sua alma.

Ao chegar à casa, parecia que já era esperada. Para seu espanto, foi convidada a entrar até o quintal, pois segundo a rezadeira, era o lugar ideal para a reza. E pela primeira vez na vida, a menina, levada pela mão, atravessou àquela porta, que durante anos permaneceu fechada para ela. Ao atravessar, sentiu toda a sua vida lhe atravessando a alma. A frase que escutou durante tanto tempo, se quebrava diante de seus olhos e, ao caminhar até o quintal, ia pisando e destruindo uma por uma, as letras que construíram aquela verdade inventada.

Agora, sentada, abraçada a sua filha, escuta a reza. Tendo a certeza que entre uma ‘Ave Maria’ e um ‘Pai Nosso’ não se vão somente as dores de sua filha, vão-se as dores de sua alma. A rezadeira, num gesto de cumplicidade, a olha profundo nos olhos e segura a sua mão.

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