sábado, 24 de dezembro de 2011

Conto Natalino

Chegou o grande dia. A menina esperava por ele o ano inteiro. Era o dia mais feliz de sua vida.
Acordou cedinho e quase não podia conter sua ansiedade. Como demorava o dia a passar, a noite teimava em não chegar. Mas a menina, apesar de sua ansiedade, fingia brincar para enganar o tempo. 
Assim, entre uma brincadeira e outra chegou a hora de se arrumar. Colocou seu vestido azul, estava se sentindo linda. Para um momento tão especial, precisava estar linda. Era noite de Natal. Para ela, a melhor noite de sua vida. Pois todos os anos (não sabia a menina que esse seria o último) saía de mãos dadas com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Não faziam uma ceia como todas as famílias, pois não tinham dinheiro para isso, bom, pelo menos era o que acreditavam... E sempre, para celebrar o Natal, saiam a passear, tomavam o ônibus e iam ao centro da cidade, lá desciam e caminhavam pelas ruas iluminadas, enfeitadas com adornos natalinos. Adorava caminhar por entre as lojas segurando a mão de seu pai, se sentia tão segura... Olhava através das vitrines os brinquedos, eram tantos, tantas bonecas, tantas... Mas a menina sabia que não podiam ser dela, pois sempre antes de sair sua mãe lhe avisava: não peça nada, vamos somente olhar... E a menina não pedia, ficava a olhar e imaginar-se brincando com as bonecas tantas que via. Como imaginava, a menina. Como se sentia feliz junto a sua família, sonhando possibilidades.
E de tanto sonhar, terminou a noite adormecida no colo de seu pai, na mais imensa paz, sonhando os mais lindos sonhos e guardando no mais profundo de sua alma a certeza da espera de mais uma noite de Natal.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sobre ser livre

Um dia vinha ela de mãos dadas com sua mãe. Sentia-se tão segura, sua mãe emanava tanta fortaleza. Não tinha idade suficiente, a menina,  para perceber as fragilidades da mãe. Assim, a mão que a segura e a guiava, era tudo.
Conversavam sobre a vida, a menina, dizia de todo o belo que experimentava ao viver. Tudo para ela era extraordinário, era mágico, era imenso. Seus olhos tinham sempre o brilho da descoberta...
De repente, a menina pára. Tem uma expressão grave. Sua mãe a observa. Estão diante de muitos pássaros, todos presos em gaiolas.
A menina, olha para mãe e diz:
- Compra para mim.
A mãe, olha profundamente em seus olhos e pergunta:
- Para que você quer pássaros em gaiolas?
A menina com sonhos no olhar, responde:
- Para soltá-los...



PS: esse texto foi escrito em homenagem à minha filha Julia Ameijeiras, que um dia me deu a beleza de vivenciar esse momento... Obrigada, meu amor. Obrigada por existir em minha vida...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Era uma vez na vida...

Era uma vez uma menina que morava dentro de uma mulher, ou era uma mulher que morava dentro de uma menina? Não se sabia, o que se sabia é as duas ocupavam o mesmo corpo. Essa menina-mulher ou mulher-menina, fora criada por uma menina que tinha muitos medos, que por sua vez tinha sido criada por outra menina, que sentia mais medo ainda. Esse medo as ligava, era um grande cordão que as entrelaçava na linha do tempo.  Dentre todos os medos, o maior dele e principal, era reconhecerem-se Mulher. Passaram toda uma vida negando a si mesmas esse fato, preferiram continuar meninas, era mais seguro. E por segurança, criaram muitas verdades inventadas, que foram passadas por este cordão a menina-mulher. E esse cordão ia se enroscando nela, dando voltas em sua vida, sussurrando em sua alma as verdades inventadas: não cresça, não seja mulher, os homens são perigosos... E sempre que a menina tentava se desatar, mas forte o cordão se enroscava nela, a aprisionando nestas verdades inventadas. Impossibilitando-a de ser, simplesmente ser. Assim, o tempo foi passando e a menina presa em sua meninez.
Sempre que um homem tentava se aproximar dela, a menina,  ela o negava, o afastava, pois ele, o homem, a queria mulher, e ela não podia ser, acreditava não saber. Lembrava das verdades inventas: "Não seja..." E cada vez ela ficava mais enroscada.
Muitos foram os que tentaram ajudá-la a se desenroscar daquele cordão. Pura ilusão. A menina até parecia não querer crescer... Vivia em seu mundo de sonhos. E parecia feliz...
Um dia, desapercebida na vida, a menina encontra um livro e, como adorava histórias, o pega para ler. Não sabia, a menina, que aquele não era um simples livro, nas páginas daquele livro se escondia um grande mistério feito em palavras. O mistério de sua própria vida. Ao ler a primeira página a menina começa a perceber que ali está mais do que uma simples história. E a cada página que lia, o livro ia se desfazendo e como magia, o cordão que a enroscava também. E ela ia deixando de ser menina e se transformando em uma mulher. Livro e cordão iam criando formas, que dançavam ao redor dela.  Quando ela terminou de ler, se deu conta que o livro havia se transformado em  um homem e que ela não era mais uma menina, sim uma mulher.  Num gesto de profunda cumplicidade, o homem a sua frente segura a sua mão, a acolhe em seus braços e sussurra em seu ouvido: Seja!

domingo, 9 de outubro de 2011

Sobre a fé


Um mês se passou desde o dia em que a menina resolveu partir. De seu boneco, desde que ele criara asas e voara, não teve mais notícias. Apenas pressentia e sentia que ele agora vivia a felicidade. A ela, menina, coube seguir seu caminho, seguir adiante sem olhar para trás. Levar no caminho esse amor tão imenso e tão seu. Somente seu. Indiscutivelmente seu. Sentir em sua alma a sua presença e a alegria de seguir amando, seguir sonhando e seguir acreditando...

Acreditando que um dia alguém acordará bem cedinho, junto com o sol e regará algumas palavras em seu canteiro. Adubará outras e as fertilizará para compartilhar com ela no café da manhã. Quando ela acordar a mesa já estará posta e ao lado de sua xícara haverá sempre um ramo de palavras-flores colhidas com paixão para enfeitar seu dia. E quando ele beijar seus olhos e lhe disser: vem? Ela responderá com toda a certeza d’ama: Vou!


PS: o trecho em negrito é parte do poema do escritor Carlos Eduardo Leal. Quem quiser conhece-lo melhor, eis o link de seu blog: http://veredaspulsionais.blogspot.com/

sábado, 28 de maio de 2011

Sobre o amor

Quando ele chegou teve a certeza que estava ali mais que um boneco. Sempre o desejou, sempre o sonhou. E agora, estava ele ali em suas mãos. Ela era só alegria. Quanto o amava. Em sua meninez, experimentou pela primeira vez a felicidade. Era tão imenso ser com ele.
O cuidava como uma mãe a um filho. O limpava. O arrumava. O penteava. O mimava. Dedicou a ele o que ela acreditava ser amor.
Um dia, sem que a menina esperasse, um desses vendavais da vida passou e levou seu boneco. Foi como se tivesse levado a alma da menina também. Não sabia sua alma ser só... Desesperada, a menina,  saiu a procurá-lo. Procurou por todos os lados, foram dias e dias de procura. Parecia até que ele não queria ser encontrado. Mas ela o encontrou. Não mais como era. Estava ele, totalmente quebrado. A menina juntou o que sobrara dele e o levou para casa. O limpou, o remendou...  agora, ele parecia um pouco com o boneco que um dia fôra, mas lhe faltava algo. Ela não sabia o que era. Mas faltava.
Esperançosa, a menina colocou o boneco  com todo o cuidado em uma cadeira e sentou-se diante dele, ficou ali parada por muito tempo, esperando que ele, como num passe de mágica, voltasse a ser o que era. Não conseguia fazer mais nada, a não ser ficar ali parada, esperando esse dia. Pura ilusão.
Doze anos se passaram para que a menina entendesse que estava presa ao que ela acreditava ser o seu amor por esse boneco. Entender que ele não era mais o mesmo. Entender que ela não era mais uma menina. Entender que a vida tinha passado para ambos enquanto eles viviam essa dupla prisão.
Com muito esforço, a menina se levantou. Foi até o espelho, enxugou a lágrima que escorria em seu rosto, abriu a porta e partiu. Partiu deixando para trás a casa, o boneco e tudo o que pudesse lembrar que um dia se pertenceram.
Para sua surpresa, ao olhar para traz, viu que o boneco criara asas e voava. Só aí percebeu o óbvio: ele não era um boneco.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ao meu amigo Poeta



Tenho um amigo poeta que está treinando pra ser formiga. Isso é imenso. Esse mesmo amigo, em seu treinamento, escreveu “In memorian de menina”, e eu tive a coragem de ler. Falo coragem, porque o que está escrito ali é muito mais que um texto poético, é vida. Vida levada até suas últimas conseqüências e, para ler é preciso “abrir o peito e sacar a alma”. Saber que a partir dali teus olhos nunca mais olharão da maneira que olharam antes e tua alma nunca mais sentirá como sentiu antes, pois com suas palavras, ele te despe de tudo o que um dia fôra construído para se vestir.



E nua, não me restou outra coisa a fazer, a não ser chorar. Chorar por sentir a imensidão da vida, por existir, por me saber mulher e saber que carrego em mim a vida de todas as mulheres que um dia passaram e passarão pela mãe Terra. Por saber da sina de ser mulher de um homem. Por saber-me mãe de duas meninas e de tudo o que isso representa. Sinto uma vontade muito grande de gritar, de dançar descalça, de correr... Correr, correr e só parar quando alcance novamente minha alma, quando a tenha em minhas mãos e, aninhada em meus braços como um dia estiveram meus filhos, diga bem baixinho em seu ouvido: tranqüila, isso é ser mulher...

Mas agora minha alma “mora ali, no infinito - lugar mais perto do coração”.