sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Rito de passagem

Olhava-se no espelho, mas não conseguia enxergar o que de verdade era. Os cabelos muito curtos parecia não combinar com o que dizia sua alma. Muito menos as roupas, uma camisa grande com estampas e um calção de jogador de futebol. Era tão esquisito se olhar. Tanto, que evitava os espelhos, melhor ser, sem ver.

Lembrava-se de quando era menor... Parecia, a primeira vista, igual a todos os meninos da rua. Mas mesmo parecendo, sentia-se diferente. Apesar de adorar brincar de bila, de subir em árvores, de peão... Quando brincava sentia-se tão igual. E por que, às vezes, tinha a sensação de estar usando disfarce? Por que não lhe saía da alma essa estranheza? Que escondia de tão profundo? De que se disfarçava? Não se dava conta. Apenas pressentia...

Hoje, ao olhar-se no espelho, sentia um profundo incômodo ao ver sua imagem. Mais do que sempre. E sempre que se sentia assim, lembrava do que sua mãe sempre lhe dizia: é para sua segurança, você ainda vai me agradecer. O mundo é muito perigoso. Não sabia, a sua mãe, que perigoso é não viver é não ser é não se ver. E por amor a sua mãe, cresceu carregando na alma, a culpa de ser o que se é.

Mesmo com toda a culpa, sentia uma necessidade vital de rebelar-se, arrancar aquele disfarce, despir-se do não ser. Percebia que estava chegando a hora. Seu corpo, num gesto de cumplicidade, fez-lhe conhecer um segredo há muito guardado, porém esperado. Sentia pulsar seu sexo, seu sexo tão proibido, tão negado. Agora, num gesto de rebeldia, expulsava todos os ‘nãos’, em forma de sangue. Sangue vermelho, vermelho da paixão, do Cristo feito mulher. Extasiada, arrancou a roupa do corpo, acariciou seu sangue, passou-o por todo o seu corpo. Tocou seu sexo e chorou, chorou... Chorou pelo milagre de se fazer mulher.

E num impulso de vida, correu nua, por toda a casa, até encontrar sua mãe e, vendo o medo em seus olhos, mostrou-lhe as mãos limpas com o sangue, seu sexo e lhe disse com toda a certeza d'alma: Sou mulher, não tá vendo?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Desafiando

Nasceu desafiando, quebrando todas as certezas. Pelo menos as certezas de sua mãe e de toda a sua família. Pois quando estava para nascer, todos tinham a certeza que viria um menino, já tinha até nome: Rivelino. E não sei se pelo nome, ou por que seu destino aqui era ser mulher, desafiou e nasceu menina.

E agora? Perguntavam-se todos. O enxoval é todo azul. Vai ter que vestir azul, é o jeito. Diziam. Assim que até que seu cabelo crescesse e ela se parecesse a uma menina, foi pela vida sendo confundida com um menino. Estava sempre vestida de azul.

Não sabe se por amor ou se por pura loucura, sua mãe nutriu em seu coração o desejo enorme dessa menina, ser menino. E passou a tratá-la como tal. Seus cabelos eram cortados bem curtos, suas roupas eram as roupas de seus irmãos maiores.
Vivia e viveu toda a sua infância, disfarçada de menino. Era motivo de riso entre os adultos, que sempre a confundiam com menino. Riam dessa confusão. Mas para menina, não tinha graça nenhuma. Alguns mais perversos a chamavam de “maria- homem”, como se tivesse sido uma escolha da menina ser homem. Não entendiam eles, muito menos ela, que ninguém a estava ensinando a ser mulher. Mas ela, continuava desafiando, e mesmo sem muitos argumentos replicava: sou menina, não tá vendo?

De tanto replicar, de tanto desafiar, sua mãe desistiu da idéia de fazê-la menino, mas também não lhe ensinou a ser menina, até por que não tinha muita prática nisso. E assim foi pela vida, a menina, se fazendo mulher sozinha. Lembra que sempre invejou as meninas que andavam como menina, que falavam como menina, que se vestiam como menina. Ela se sentia tão grosseira perto dessas meninas. E quando um menino a olhava diferente, não sabia o que fazer. Não sabia nem mesmo o que é que ele poderia ver nela. Ainda hoje, não sabe o que fazer quando um homem a olha, mas pelo menos já sabe o que ele pode ver.

Foi e está sendo um aprendizado difícil. Mas a menina, já deixou o cabelo crescer, veste vestidos, pinta os lábios, não sente mais inveja das outras meninas, pois descobriu sua maneira de ser menina e descobriu também o lado sagrado de tudo isso que é se fazer mulher.

Nesta descoberta, compreendeu que tudo o que sua mãe fez foi por amor, queria desesperadamente protegê-la da dor de ser mulher, pois para ela, sua mãe, ser mulher foi só dor. A menina, hoje, sente uma enorme compaixão por sua mãe, e com muito cuidado, sem mais desafiar, lhe diz olhando nos olhos: não tenha medo mamãe, somos mulheres...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Onde você estiver...

Desde muito cedo teve que aprender a conviver coma ausência de seu pai, foram tantas as vezes que ele foi e voltou em sua vida, que ela nem percebeu quando ele partiu de vez.

Lembra sim, da primeira vez que ele se foi. Era muito pequena, deveria ter uns seis anos. Não sabia muito o que estava acontecendo. Só sabia que seu pai não morava mais em casa e ela não tinha a mínima idéia do que era de suas vidas (a do seu pai e a dela). Lembra que tinha um medo muito grande que ele a esquecesse.

Nessa época, por coincidência ou sei lá o quê, a música que tocava em todas as rádios, era o grande sucesso do Rei Roberto ‘Não se esqueça de mim’. A menina não podia ouvir a música, lhe doía fundo a alma. Na sua meninice, cantava para o seu pai: eu quero apenas estar em seu pensamento, por um momento pensar que você pensa em mim, onde você estiver... Mas seu pai não escutava. Chorava a menina, em vão. Essa música lhe acompanha até hoje, mas a menina não chora mais. Apesar de lhe comover a imagem dela cantando para o seu pai.

Pergunta-se e sempre se perguntou o porquê de tanta fuga. Será que a fome de viver e de ser livre de seu pai, era mais importante do que qualquer outra coisa em sua vida? Seria medo de ser amado?

Talvez fosse isso, seu pai não estava acostumado a tanto amor. Nem mesmo um amor puro como o dela. Ser amado, para ele, era experimentar uma dor muito grande. Ele não suportava. E por amor, a menina, foi deixando de amá-lo. No lugar desse amor, existe um vazio imenso. O vazio das lembranças de tudo o que poderia ter sido e não foi. O passeio de mãos dadas, a festa no dia dos pais na escola, o beijo na hora de ir dormir, as noites de febre, o livro que não foi lido...

Mas a vida sempre nos concede o reencontro. Nesse re-encontro, apesar do tempo trocar os papéis e a menina ser mãe e não mais filha, ela se permite saber quem é esse homem que ela chama de pai. Assim que, uma vez por semana, ela o visita e pede para que ele conte sua história, e a menina feliz, grava tudo em seu gravador e em sua alma.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sobre a menina

A menina sim, se sentia sozinha, apesar de já está acostumada a essa solidão. Até por que ela nunca se adaptou ao mundo dos adultos. Vivia em seu mundo de sonhos. Alguns poucos a conseguiam tocar e tirá-la das nuvens, lugar onde se sentia mais segura. Mas não tinha medo da solidão, tinha medo sim de ser tocada, do contato com o outro e de tudo o que isso representa. O compromisso de ser com o outro, para ela, sempre foi um desafio. Assim, que em seu mundo, as nuvens, ficava a observar as pessoas ao seu redor e só se permitia ser com aquelas as quais ela acreditava não serem capazes de lhe arranhar a alma. Ela não entendia que ser com outro é se permitir arranhar a alma.

Até o dia em que conheceu a poesia, e esta, segurou-a pela mão e a fez descer das nuvens. Falou-lhe da leveza, do peso. Do amor, do ser com o outro. Mas também lhe arranhou a alma, porque sua verdade é muito intensa. E ser com ela é um aprendizado cotidiano, precisa-se de muita coragem e fé. E coragem e fé é o que não falta a essa menina, é o que de melhor ela aprendeu em seu mundo de sonhos.
Agora, a menina, está se transformando em mulher e caminha nua, de braços abertos, deixando cair uma lágrima silenciosa e quente, assim como, neste momento, encontra-se sua alma.

A Festa

Vivia ela feliz em seu mundo, mundo de menina, de menina pobre. Vivia cercada da riqueza que só a pobreza é capaz de oferecer. Uma rua como lar. Árvores para subir. Espaço para correr, brincar. Amigos que, iguais a ela, gozavam da mesma imensidão que é não ter. E que juntos, iam se fazendo gente.

Com seus amigos tudo era festa, partilha, entrega. Estavam juntos todos os dias, o dia todo. Freqüentavam a mesma escola, a mesma rua, a casa um do outro, e o momento especial do dia: brincar ao anoitecer. Brincar de roda, de corda, de carimba, de sete pecados... Eram tantas as brincadeiras que não cabiam em uma noite, sempre deixavam uma para a próxima noite, o próximo encontro.

A rua, seu lar, ainda era de pedras, com poucas casas. E as casas que tinha, eram pequenas, com muito espaço ao redor. Não tinham muros, a porta da entrada dava diretamente para rua, para facilitar o encontro com o outro. Mais do que uma rua, seu lar, era uma aldeia.

Um dia, construíram uma casa em sua rua. Uma casa grande, com muros altos, portão. E lá dentro, depois do portão, uma porta. Uma porta que permanecia sempre fechada. Morava naquela casa uma mulher com duas filhas, eram duas meninas, iguais à menina. E ela, menina, não compreendia, porque essas meninas não saiam à rua. Às vezes para elas brincarem, sua mãe, roubava da rua e da menina, suas brincadeiras e alguns de seus amigos, levava para a casa e sempre fechava a porta. Sempre.

Passados alguns meses, a menina soube, por sua irmã, que aquela mulher, de porta fechada, iria abrir sua porta, para celebrar o aniversário de uma de suas filhas. Foi uma alegria geral na rua. Uma Festa! Uma porta que se abria. A menina era a única que não conseguia se alegrar, não entendia o porquê, mas alguma coisa lhe dizia que ela não podia fazer sua, aquela alegria.

O dia da Festa chegou, e por insistência de sua irmã, a menina foi. Ao chegar à casa, a Festa já acontecia. Todos os seus amigos estavam lá, brincando, no espaço entre o portão e a porta. A porta permanecia fechada. A menina entrou, com o seu presente na mão, mas não encontrou a aniversariante, para poder abraçá-la e presenteá-la, como era o costume da rua. Encontrou um cesto com o nome da aniversariante, cheio de presentes. Meio sem jeito, a menina colocou seu presente ali. Não se sentia a vontade, aquela porta fechada lhe dizia tanta coisa, em sua meninice, que preferiu sentar-se e esperar à hora dos parabéns.

De repente, a porta se abriu, e aquela mulher anunciou que havia chegado a hora mágica dos parabéns. Convidou a todos para entrarem. Todos os meninos e meninas se organizaram em fila para poder passar pela porta e chegar à mesa onde estava o bolo e a aniversariante esperando. A menina era a última da fila e, via de seu lugar, cada criança que entrava e passava pela porta. Cada vez ficava mais perto a sua hora de também passar. Estava feliz, pois se aproximava o momento em que iria descobrir o que se escondia detrás daquela porta sempre fechada. Mas, para sua surpresa, ao chegar o seu momento, escutou uma voz de uma delicadeza forçada, que só os adultos conseguem ter, que lhe disse: não, você não pode entrar.

Nem a menina nem a mulher puderam perceber no momento a dimensão que foi esse ‘não, você não pode entrar’. O único que se sabe é que a menina, obediente que era, voltou para o seu assento e esperou terminar a festa para voltar para casa. Ao chegar em casa, chorou como gente grande e durante muito tempo em sua vida, continuou ouvindo a voz da mulher, impregnando sua alma, fazendo-a acreditar que a qualquer momento, em sua vida, alguém iria chegar e dizer novamente: “não, você não pode entrar”. Assim, a menina foi se acostumando a não sentir sua, a vida.

A Reza

Muito tempo se passou, desde o dia da ‘Festa’. A menina parecia crescida, pelo menos era o que aparentava. Mas a casa continuava ali, com sua porta fechada. Da mulher não se tinha mais notícias, deve está fechando portas pela vida.

Outras vidas vieram habitar àquela casa. Vidas mais felizes. Portas eram abertas. A rua, com o tempo, é que começou a deixar de ser lar. As árvores que a menina subia, caíram e deram lugar a muros altos, muito altos. Não se queria mais ser com o outro, salvo alguns que teimavam e não temiam o encontro.

A atual moradora da antiga casa era uma dessas pessoas destemidas. Deixava a porta aberta. Esperava sempre com um sorriso, o encontro. Era rezadeira. Diziam que com sua reza, não curava somente o corpo, curava a alma.

A menina sempre a via de longe, pois com o tempo, ela, a menina, passou a esquivar-se da calçada da casa. As lembranças ainda doíam em algum lugar d’alma. Não sabia, a menina, que sua história com aquela casa não se tinha terminado.

E nessas voltas que a vida dá, a menina, como na canção que cantava, deu meia volta, volta e meia deu e, deparou-se com a ironia, de que naquela casa se encontrava a cura para sua filha, para sua vida.

Precisou levar sua filha para uma reza, e a única rezadeira pelas redondezas, era a atual moradora da antiga casa. Foi aí, sem perceber, que a menina começou a curar sua alma.

Ao chegar à casa, parecia que já era esperada. Para seu espanto, foi convidada a entrar até o quintal, pois segundo a rezadeira, era o lugar ideal para a reza. E pela primeira vez na vida, a menina, levada pela mão, atravessou àquela porta, que durante anos permaneceu fechada para ela. Ao atravessar, sentiu toda a sua vida lhe atravessando a alma. A frase que escutou durante tanto tempo, se quebrava diante de seus olhos e, ao caminhar até o quintal, ia pisando e destruindo uma por uma, as letras que construíram aquela verdade inventada.

Agora, sentada, abraçada a sua filha, escuta a reza. Tendo a certeza que entre uma ‘Ave Maria’ e um ‘Pai Nosso’ não se vão somente as dores de sua filha, vão-se as dores de sua alma. A rezadeira, num gesto de cumplicidade, a olha profundo nos olhos e segura a sua mão.