quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Desafiando

Nasceu desafiando, quebrando todas as certezas. Pelo menos as certezas de sua mãe e de toda a sua família. Pois quando estava para nascer, todos tinham a certeza que viria um menino, já tinha até nome: Rivelino. E não sei se pelo nome, ou por que seu destino aqui era ser mulher, desafiou e nasceu menina.

E agora? Perguntavam-se todos. O enxoval é todo azul. Vai ter que vestir azul, é o jeito. Diziam. Assim que até que seu cabelo crescesse e ela se parecesse a uma menina, foi pela vida sendo confundida com um menino. Estava sempre vestida de azul.

Não sabe se por amor ou se por pura loucura, sua mãe nutriu em seu coração o desejo enorme dessa menina, ser menino. E passou a tratá-la como tal. Seus cabelos eram cortados bem curtos, suas roupas eram as roupas de seus irmãos maiores.
Vivia e viveu toda a sua infância, disfarçada de menino. Era motivo de riso entre os adultos, que sempre a confundiam com menino. Riam dessa confusão. Mas para menina, não tinha graça nenhuma. Alguns mais perversos a chamavam de “maria- homem”, como se tivesse sido uma escolha da menina ser homem. Não entendiam eles, muito menos ela, que ninguém a estava ensinando a ser mulher. Mas ela, continuava desafiando, e mesmo sem muitos argumentos replicava: sou menina, não tá vendo?

De tanto replicar, de tanto desafiar, sua mãe desistiu da idéia de fazê-la menino, mas também não lhe ensinou a ser menina, até por que não tinha muita prática nisso. E assim foi pela vida, a menina, se fazendo mulher sozinha. Lembra que sempre invejou as meninas que andavam como menina, que falavam como menina, que se vestiam como menina. Ela se sentia tão grosseira perto dessas meninas. E quando um menino a olhava diferente, não sabia o que fazer. Não sabia nem mesmo o que é que ele poderia ver nela. Ainda hoje, não sabe o que fazer quando um homem a olha, mas pelo menos já sabe o que ele pode ver.

Foi e está sendo um aprendizado difícil. Mas a menina, já deixou o cabelo crescer, veste vestidos, pinta os lábios, não sente mais inveja das outras meninas, pois descobriu sua maneira de ser menina e descobriu também o lado sagrado de tudo isso que é se fazer mulher.

Nesta descoberta, compreendeu que tudo o que sua mãe fez foi por amor, queria desesperadamente protegê-la da dor de ser mulher, pois para ela, sua mãe, ser mulher foi só dor. A menina, hoje, sente uma enorme compaixão por sua mãe, e com muito cuidado, sem mais desafiar, lhe diz olhando nos olhos: não tenha medo mamãe, somos mulheres...

2 comentários:

  1. Nascer desafiando é um fardo e uma bênção, pois nos faz ser mais nós mesmastendo que pensar o que devemos/queremos ser...Você escreve lindamente, menina...

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