quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Voo d'alma


Hoje queria criar asas, voltar para as nuvens, seu mundo. Ficar lá quieta, não ser vista, se permitir somente observar como os homens e mulheres aqui na terra se amam, se doem, se entregam, se desistem, se desejam profundamente insanamente.
Mas não sentia suas asas, sentia uma força, um peso que lhe prendia à terra, apesar de sua alma relutar e querer voar. Sem asas caminhou por entre as pessoas, tomou caminhos vários. Amou, doeu, se entregou, desistiu e desejou profundamente e insanamente como qualquer um. E descobrindo-se mais uma, descobriu-se outra. Não mais uma menina. Sim, uma mulher. Agora, mesmo sem asas, consegue voar...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Desencontro

Brincava ela feliz em seu jardim, rodeada de muros. Esteve sempre assim rodeada de muros, não conhecia outra realidade, não tinha outros quereres a não ser brincar em seu jardim. Esse dia, era um desses dias em que o sol nos convida à vida, nos impregna com sua luz, nos enche a alma de esperanças. A menina, completamente imersa em seu mundo, seu jardim, assustou-se quando pela primeira vez em sua vida, percebeu que em seu muro havia uma fresta. Sabia, em sua meninice, que aquela fresta era um convite a outros mundos que não o seu. Sentiu medo. Melhor fechá-la. Mas o encantamento provocado pela fresta era maior que o medo, a menina quase conseguia ouvir seu nome sendo chamado por aquela pequena passagem. Caminhou lentamente, corajosamente em direção à fresta e com o coração aos pulos, olhou. No primeiro momento não conseguia distinguir o que via, estava muito emocionada, aos poucos as imagens iam-lhe aparecendo: um jardim parecido ao seu e um menino que igual a ela brincava rodeado pelos muros.
O observou por um longo tempo. Seus gestos, sua ternura ao brincar, eram-lhe tão familiares. Estava tão imerso em seu mundo, seu jardim. Parecia inatingível. Que lindo que era! Seria um sonho ou seria real? A menina sem saber, neste momento estava sendo tomada por um grande amor. Que vontade teve de puder passar esse muro e só por um momento sabê-lo real. Ser vista por ele. Puder tocá-lo. Simplesmente tocá-lo.
O desejo da menina foi tanto, tanto, que tocou o menino. Ele sem saber bem o por quê olhou em direção a ela e, também assustado, percebeu que tinha uma fresta em seu muro. Teve medo da possibilidade de ser visto no mais intimo de seu ser. Estava acostumado a sua solidão. Caminhou rapidamente em direção a fresta, precisava fazer algo...
Qual foi a emoção da menina em vê-lo caminhar em sua direção! Imersa em seu amor, acreditou, ela, que ele lhe via... Mas o menino em nenhum momento a viu, a percebeu. O único que queria era não se sentir tão invadido. E, num gesto quase de sobrevivência, aproximou-se da fresta e a tapou com sua mão.
A menina incrédula deixou cair uma lágrima de seus olhos. Apenas uma lágrima.