domingo, 9 de outubro de 2011

Sobre a fé


Um mês se passou desde o dia em que a menina resolveu partir. De seu boneco, desde que ele criara asas e voara, não teve mais notícias. Apenas pressentia e sentia que ele agora vivia a felicidade. A ela, menina, coube seguir seu caminho, seguir adiante sem olhar para trás. Levar no caminho esse amor tão imenso e tão seu. Somente seu. Indiscutivelmente seu. Sentir em sua alma a sua presença e a alegria de seguir amando, seguir sonhando e seguir acreditando...

Acreditando que um dia alguém acordará bem cedinho, junto com o sol e regará algumas palavras em seu canteiro. Adubará outras e as fertilizará para compartilhar com ela no café da manhã. Quando ela acordar a mesa já estará posta e ao lado de sua xícara haverá sempre um ramo de palavras-flores colhidas com paixão para enfeitar seu dia. E quando ele beijar seus olhos e lhe disser: vem? Ela responderá com toda a certeza d’ama: Vou!


PS: o trecho em negrito é parte do poema do escritor Carlos Eduardo Leal. Quem quiser conhece-lo melhor, eis o link de seu blog: http://veredaspulsionais.blogspot.com/

sábado, 28 de maio de 2011

Sobre o amor

Quando ele chegou teve a certeza que estava ali mais que um boneco. Sempre o desejou, sempre o sonhou. E agora, estava ele ali em suas mãos. Ela era só alegria. Quanto o amava. Em sua meninez, experimentou pela primeira vez a felicidade. Era tão imenso ser com ele.
O cuidava como uma mãe a um filho. O limpava. O arrumava. O penteava. O mimava. Dedicou a ele o que ela acreditava ser amor.
Um dia, sem que a menina esperasse, um desses vendavais da vida passou e levou seu boneco. Foi como se tivesse levado a alma da menina também. Não sabia sua alma ser só... Desesperada, a menina,  saiu a procurá-lo. Procurou por todos os lados, foram dias e dias de procura. Parecia até que ele não queria ser encontrado. Mas ela o encontrou. Não mais como era. Estava ele, totalmente quebrado. A menina juntou o que sobrara dele e o levou para casa. O limpou, o remendou...  agora, ele parecia um pouco com o boneco que um dia fôra, mas lhe faltava algo. Ela não sabia o que era. Mas faltava.
Esperançosa, a menina colocou o boneco  com todo o cuidado em uma cadeira e sentou-se diante dele, ficou ali parada por muito tempo, esperando que ele, como num passe de mágica, voltasse a ser o que era. Não conseguia fazer mais nada, a não ser ficar ali parada, esperando esse dia. Pura ilusão.
Doze anos se passaram para que a menina entendesse que estava presa ao que ela acreditava ser o seu amor por esse boneco. Entender que ele não era mais o mesmo. Entender que ela não era mais uma menina. Entender que a vida tinha passado para ambos enquanto eles viviam essa dupla prisão.
Com muito esforço, a menina se levantou. Foi até o espelho, enxugou a lágrima que escorria em seu rosto, abriu a porta e partiu. Partiu deixando para trás a casa, o boneco e tudo o que pudesse lembrar que um dia se pertenceram.
Para sua surpresa, ao olhar para traz, viu que o boneco criara asas e voava. Só aí percebeu o óbvio: ele não era um boneco.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ao meu amigo Poeta



Tenho um amigo poeta que está treinando pra ser formiga. Isso é imenso. Esse mesmo amigo, em seu treinamento, escreveu “In memorian de menina”, e eu tive a coragem de ler. Falo coragem, porque o que está escrito ali é muito mais que um texto poético, é vida. Vida levada até suas últimas conseqüências e, para ler é preciso “abrir o peito e sacar a alma”. Saber que a partir dali teus olhos nunca mais olharão da maneira que olharam antes e tua alma nunca mais sentirá como sentiu antes, pois com suas palavras, ele te despe de tudo o que um dia fôra construído para se vestir.



E nua, não me restou outra coisa a fazer, a não ser chorar. Chorar por sentir a imensidão da vida, por existir, por me saber mulher e saber que carrego em mim a vida de todas as mulheres que um dia passaram e passarão pela mãe Terra. Por saber da sina de ser mulher de um homem. Por saber-me mãe de duas meninas e de tudo o que isso representa. Sinto uma vontade muito grande de gritar, de dançar descalça, de correr... Correr, correr e só parar quando alcance novamente minha alma, quando a tenha em minhas mãos e, aninhada em meus braços como um dia estiveram meus filhos, diga bem baixinho em seu ouvido: tranqüila, isso é ser mulher...

Mas agora minha alma “mora ali, no infinito - lugar mais perto do coração”.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ter amigas Borboletas


A menina acordou hoje numa imensa felicidade. Ontem, ela passeou por um lindo jardim, cheio de Borboletas. Dançou, correu, brincou, sorriu e conversou muito com as borboletas. Contou de sua culpa, falou do tempo que a carrega na alma. Chorou, mas um choro diferente. Um choro de quem está se despedindo de algo que não é seu, um choro do deixar ir... As Borboletas lhe falaram muito sobre o ser o que se é, da beleza que é saber-se e contentar-se com o que lhe toca ser. À menina lhe tocou ser mulher, e nada, absolutamente nada, nem ela mesma, pode lhe roubar essa condição. E isso é um fato em sua existência, isso é tudo, isso é imenso, isso é MA-RA-VI-LHO-SO!!!!!
Abrir-se a essa verdade está sendo para a menina como quebrar um casulo e voar, voar como suas amigas Borboletas, ser livre e ir além... É saber também, que os homens são seus grandes aliados, pois eles, os homens, a fazem cada dia mais mulher.
As Borboletas sempre lhes diziam o quanto os homens lhes faziam felizes, mas a menina não entendia. Hoje, ela entende. E ela pode, assim como as Borboletas, celebrar com Ele (o Chico) o ser  mulher...


 "Deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia (...) mas vida, ali, eu sei que fui feliz".

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os sapatos eram vermelhos

A porta se abriu. O primeiro que viu foi um par de sapatos vermelhos, de saltos muito finos. E em cima desses sapatos, duas lindas pernas sustentavam um lindo corpo. Um corpo esbelto, delicado, feminino. Parecia até que podia voar. Que leves eram seus movimentos... Os braços estendidos, seguravam uma mão. Mas não era somente uma mão. Era a mão que tanto sonhou segurar, que tanto sonhou lhe fazer um carinho... Ali estava ela, fazendo carinho em outro rosto, tocando outra mão que não a sua. E sim, de uma mulher. Que imagem forte para a menina. Nesse momento, se deu conta do quanto distante estava dessa forma de ser mulher... E por um instante, esqueceu a mão e tudo o que ela representava. Só tinha olhos para aquela mulher. Não que a desejasse,  não. O  que sentia era uma profunda tristeza, tristeza  por compreender que ainda estava guardado,  no mais profundo de sua alma, a culpa de ser mulher.  Crescera com essa culpa e agora percebia que o que a afastava dos homens, era o fato deles lhe lembrarem que ela era uma mulher. E agora, ao ver ali diante dos seus olhos, uma mulher que não lhe passava culpa alguma por sua condição, lhe veio toda a sua vida como num sonho e toda a negação de sua sexualidade... A menina, imersa na sua impossibilidade de ser, chorou mais uma vez, como gente grande.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Abismos

Com passos firmes caminhava decidida rumo ao seu destino. Tinha pressa, precisava chegar. Não percebia, que ao caminhar, levava junto com ela o caminho. A cada passo que dava, deixava um vazio, um enorme abismo atrás de si.
Caminhou muito, acreditava que ali adiante seu destino a esperava. De repente, à sua frente se depara com um grande vazio, um grande abismo. Não podia mais seguir adiante. Só lhe restava voltar. Foi aí que percebeu que não tinha mais caminho para voltar. O único que lhe restava era a terra embaixo de seus pés, que aos poucos ia se desfazendo.
Sentiu medo. Muito medo. Poderia ficar ali parada, paralisada pelo medo, esperando que a terra embaixo de seus pés desaparecesse. Mas não lhe restava outra alternativa a não ser caminhar. Respirou profundo, abriu os braços para a imensidão e deu um passo adiante... Qual foi sua surpresa ao perceber que podia voar...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Voo d'alma


Hoje queria criar asas, voltar para as nuvens, seu mundo. Ficar lá quieta, não ser vista, se permitir somente observar como os homens e mulheres aqui na terra se amam, se doem, se entregam, se desistem, se desejam profundamente insanamente.
Mas não sentia suas asas, sentia uma força, um peso que lhe prendia à terra, apesar de sua alma relutar e querer voar. Sem asas caminhou por entre as pessoas, tomou caminhos vários. Amou, doeu, se entregou, desistiu e desejou profundamente e insanamente como qualquer um. E descobrindo-se mais uma, descobriu-se outra. Não mais uma menina. Sim, uma mulher. Agora, mesmo sem asas, consegue voar...

Hoje é o dia da Maria

Lembro-me com nitidez o dia em que lhe tive em meus braços pela primeira vez. Você era igual a menina dos meus sonhos. Sim, você me apa...