quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ter amigas Borboletas


A menina acordou hoje numa imensa felicidade. Ontem, ela passeou por um lindo jardim, cheio de Borboletas. Dançou, correu, brincou, sorriu e conversou muito com as borboletas. Contou de sua culpa, falou do tempo que a carrega na alma. Chorou, mas um choro diferente. Um choro de quem está se despedindo de algo que não é seu, um choro do deixar ir... As Borboletas lhe falaram muito sobre o ser o que se é, da beleza que é saber-se e contentar-se com o que lhe toca ser. À menina lhe tocou ser mulher, e nada, absolutamente nada, nem ela mesma, pode lhe roubar essa condição. E isso é um fato em sua existência, isso é tudo, isso é imenso, isso é MA-RA-VI-LHO-SO!!!!!
Abrir-se a essa verdade está sendo para a menina como quebrar um casulo e voar, voar como suas amigas Borboletas, ser livre e ir além... É saber também, que os homens são seus grandes aliados, pois eles, os homens, a fazem cada dia mais mulher.
As Borboletas sempre lhes diziam o quanto os homens lhes faziam felizes, mas a menina não entendia. Hoje, ela entende. E ela pode, assim como as Borboletas, celebrar com Ele (o Chico) o ser  mulher...


 "Deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia (...) mas vida, ali, eu sei que fui feliz".

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os sapatos eram vermelhos

A porta se abriu. O primeiro que viu foi um par de sapatos vermelhos, de saltos muito finos. E em cima desses sapatos, duas lindas pernas sustentavam um lindo corpo. Um corpo esbelto, delicado, feminino. Parecia até que podia voar. Que leves eram seus movimentos... Os braços estendidos, seguravam uma mão. Mas não era somente uma mão. Era a mão que tanto sonhou segurar, que tanto sonhou lhe fazer um carinho... Ali estava ela, fazendo carinho em outro rosto, tocando outra mão que não a sua. E sim, de uma mulher. Que imagem forte para a menina. Nesse momento, se deu conta do quanto distante estava dessa forma de ser mulher... E por um instante, esqueceu a mão e tudo o que ela representava. Só tinha olhos para aquela mulher. Não que a desejasse,  não. O  que sentia era uma profunda tristeza, tristeza  por compreender que ainda estava guardado,  no mais profundo de sua alma, a culpa de ser mulher.  Crescera com essa culpa e agora percebia que o que a afastava dos homens, era o fato deles lhe lembrarem que ela era uma mulher. E agora, ao ver ali diante dos seus olhos, uma mulher que não lhe passava culpa alguma por sua condição, lhe veio toda a sua vida como num sonho e toda a negação de sua sexualidade... A menina, imersa na sua impossibilidade de ser, chorou mais uma vez, como gente grande.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Abismos

Com passos firmes caminhava decidida rumo ao seu destino. Tinha pressa, precisava chegar. Não percebia, que ao caminhar, levava junto com ela o caminho. A cada passo que dava, deixava um vazio, um enorme abismo atrás de si.
Caminhou muito, acreditava que ali adiante seu destino a esperava. De repente, à sua frente se depara com um grande vazio, um grande abismo. Não podia mais seguir adiante. Só lhe restava voltar. Foi aí que percebeu que não tinha mais caminho para voltar. O único que lhe restava era a terra embaixo de seus pés, que aos poucos ia se desfazendo.
Sentiu medo. Muito medo. Poderia ficar ali parada, paralisada pelo medo, esperando que a terra embaixo de seus pés desaparecesse. Mas não lhe restava outra alternativa a não ser caminhar. Respirou profundo, abriu os braços para a imensidão e deu um passo adiante... Qual foi sua surpresa ao perceber que podia voar...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Voo d'alma


Hoje queria criar asas, voltar para as nuvens, seu mundo. Ficar lá quieta, não ser vista, se permitir somente observar como os homens e mulheres aqui na terra se amam, se doem, se entregam, se desistem, se desejam profundamente insanamente.
Mas não sentia suas asas, sentia uma força, um peso que lhe prendia à terra, apesar de sua alma relutar e querer voar. Sem asas caminhou por entre as pessoas, tomou caminhos vários. Amou, doeu, se entregou, desistiu e desejou profundamente e insanamente como qualquer um. E descobrindo-se mais uma, descobriu-se outra. Não mais uma menina. Sim, uma mulher. Agora, mesmo sem asas, consegue voar...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Desencontro

Brincava ela feliz em seu jardim, rodeada de muros. Esteve sempre assim rodeada de muros, não conhecia outra realidade, não tinha outros quereres a não ser brincar em seu jardim. Esse dia, era um desses dias em que o sol nos convida à vida, nos impregna com sua luz, nos enche a alma de esperanças. A menina, completamente imersa em seu mundo, seu jardim, assustou-se quando pela primeira vez em sua vida, percebeu que em seu muro havia uma fresta. Sabia, em sua meninice, que aquela fresta era um convite a outros mundos que não o seu. Sentiu medo. Melhor fechá-la. Mas o encantamento provocado pela fresta era maior que o medo, a menina quase conseguia ouvir seu nome sendo chamado por aquela pequena passagem. Caminhou lentamente, corajosamente em direção à fresta e com o coração aos pulos, olhou. No primeiro momento não conseguia distinguir o que via, estava muito emocionada, aos poucos as imagens iam-lhe aparecendo: um jardim parecido ao seu e um menino que igual a ela brincava rodeado pelos muros.
O observou por um longo tempo. Seus gestos, sua ternura ao brincar, eram-lhe tão familiares. Estava tão imerso em seu mundo, seu jardim. Parecia inatingível. Que lindo que era! Seria um sonho ou seria real? A menina sem saber, neste momento estava sendo tomada por um grande amor. Que vontade teve de puder passar esse muro e só por um momento sabê-lo real. Ser vista por ele. Puder tocá-lo. Simplesmente tocá-lo.
O desejo da menina foi tanto, tanto, que tocou o menino. Ele sem saber bem o por quê olhou em direção a ela e, também assustado, percebeu que tinha uma fresta em seu muro. Teve medo da possibilidade de ser visto no mais intimo de seu ser. Estava acostumado a sua solidão. Caminhou rapidamente em direção a fresta, precisava fazer algo...
Qual foi a emoção da menina em vê-lo caminhar em sua direção! Imersa em seu amor, acreditou, ela, que ele lhe via... Mas o menino em nenhum momento a viu, a percebeu. O único que queria era não se sentir tão invadido. E, num gesto quase de sobrevivência, aproximou-se da fresta e a tapou com sua mão.
A menina incrédula deixou cair uma lágrima de seus olhos. Apenas uma lágrima.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Encontro

Olhou-se no espelho, agora contente, pois enfim conseguira escolher a roupa apropriada para a ocasião: um encontro há muito esperado. Não se podia ir de qualquer jeito, precisava ir parecida a ela mesma. Sempre teve a impressão que algumas roupas a faziam virar outra mulher. Não, hoje precisaria dela. E assim, escolheu o seu vestido azul. Este vestido dizia tanto dela, que às vezes, o vestir era como desnudar-se. E era assim que ela queria estar para essa ocasião.


Não lembrava muito bem como o conhecera, pois tudo foi tão rápido. Lembrava sim, que o primeiro que lhe chamou a atenção nele, foi sabê-lo poeta. Fora tomada de assalto por suas palavras, o peso e a leveza, contidos em cada palavra, eram vertiginosos. Fora Chico, nunca ouvira outro homem dizer tão profundamente da alma feminina. E ele dizia. Era lindo se ver mulher a partir do olhar daquele homem. O acompanhava diariamente, cotidianamente. Lia e relia várias vezes seus poemas, seus contos. Era sua maneira de encontrá-lo. Sabia dele a partir de suas palavras.


Mas não o conhecia. Aliás, não da maneira costumeira. Salvo uma foto que tinha em seu blog, nunca o tinha visto. Não sabia como era o seu andar, que gestos utilizava ao falar, como seria sua voz, como seria a palavra falada por ele. Não. Não sabia nada disso.


Mas, eis que o inesperado aconteceu: um encontro. Sim, um encontro com ele. Um encontro que de tanto esperado, agora provocava medo. Medo de sabê-lo real, humano, nítido. Mas, não poderia deixar de ir. Não poderia perder a oportunidade de conhecê-lo. De tê-lo perto. Estava feliz. O lugar não poderia ser mais apropriado, um sarau de poesia. Ali, iria encontrá-lo.


Chegou atrasada. Será que ele ainda estaria por aí? Não sabia. Estava tão ansiosa. Procurou-o pelo salão. Ali estava ele, com sua beleza indizível e sua palavra indescritível. Aproximou-se devagar, como querendo reter para si o momento. Sentou-se diante dele e, ainda teve tempo de ouvir, como se fosse para ela, as últimas palavras do poema que ele acabara de ler finalizando sua performance:


“... meninas, são tão lindas
(instáveis, voláteis, risíveis)
ainda mais
quando não são
mas fingem-se meninas.” *




*poema “Meninas” de Aluisio Martins


Filme curta-metragem baseado neste conto::http://www.youtube.com/watch?v=WO-SdK53ISY

domingo, 13 de setembro de 2009

Tempo ao revés

Caminhavam as duas felizes em direção ao afeto, ao carinho, aos sonhos compartilhados. Iam ao encontro do avô. Brincar em sua sala, ouvir histórias sobre o tempo do amor, da partilha, das mãos estendidas. Como ansiaram por esse dia. Dia de ser feliz...

Eram muito pequenas, as duas, viviam no mundo da inocência. Ainda não conheciam a dor, a quebra, as mãos cerradas. Viver era só festa, só encontro... Que felicidade era o existir...

Chegando ao destino, não encontraram o avô. Encontraram bem no meio do tempo, uma porta gigantesca, fechada. Uma porta do não tempo, do tempo do não existir, do tempo ao revés. Um pavor imenso inundou seus corações. Que imensa era aquela porta! Que imenso era aquele não! Abraçadas choraram o medo do não existir.
Mas o tempo do não se fazer era implacável, passou como um furacão e levou as meninas. Levou numa volta ao tempo, no tempo do ventre de suas mães... E mais além, no tempo de suas mães meninas, iguais a elas, com o mesmo pavor nos olhos. O pavor de se saberem sós, presas a um não tempo, a um não existir. Onde estaria ele, o avô-pai? Onde? Onde estavam suas mãos que não conseguiam segurá-las, que não as vinham socorrer, sacá-las desse não existir? Estavam-se indo. Perdendo-se no revés do tempo.

Sabiam-se presas na memória futura de um rapaz, que neste tempo presente, estava imerso em sua dor do existir. Elas e ele presos na mesma memória, cada qual em seu tempo. Ele sonhava com elas, mas não entendia que elas eram reais. Eram a sua vida, que ele agora negava. Mas ele não entendia que elas poderiam sim, romper esse tempo do não existir e vir a ser o que se é. Bastaria um gesto dele, um simples estender de mãos... Insistia ele, em sua dor, sem saber que o existir delas dependia de sua coragem de fazê-las reais.

Elas gritavam , mas ele não escutava, estava paralisado no tempo. E elas sabiam que poderiam ficar para sempre presas a essa possibilidade de existir. Choravam, suas lágrimas se misturavam com as dele, seus gritos de dor é a dor que ele sente cravada em seu peito. A dor de não poder existir...

Hoje é o dia da Maria

Lembro-me com nitidez o dia em que lhe tive em meus braços pela primeira vez. Você era igual a menina dos meus sonhos. Sim, você me apa...