sexta-feira, 27 de março de 2015

Hoje é o dia da Maria

Lembro-me com nitidez o dia em que lhe tive em meus braços pela primeira vez. Você era igual a menina dos meus sonhos. Sim, você me apareceu em sonhos. E eu sabia de um saber de alma, que era você que se gestava dentro de mim. 
Assim que você nasceu, lhe colocaram em meus braços, foi um dos momentos mais lindos que vivi. Você chupava seu dedinho e isso era tão imenso. De repente eu tinha aquele serzinho, tão pequenininha em meu colo, com o dedinho na boca, me olhando. Neste momento no Universo inteiro, só existia você e eu. Num gesto de amor, tirei o seu dedinho da boca e lhe ofereci meu peito e aí dei-me conta do milagre da Vida, dei-me conta do infinito amor que me une a você. Amor esse que mesmo que pareça impossível, foi crescendo com o tempo. É eu consigo lhe amar mais ainda do que no primeiro dia em que lhe tive em meu colo. Creia. 
Hoje, vendo você tão crescida, tão menina-grande, me emociono da mesma maneira que me emocionei há onze anos atrás. Você sempre me emociona. Na sua fala, nos seus gestos, na sua delicadeza, na sua firmeza, no seu olhar, no seu sorriso, na sua maneira de Ser no mundo. Vivo um turbilhão de emoções. É tão maravilhoso Ser com você, é tão mágico ir pela vida ao seu lado, é tão intenso, tão imenso saber-nos imersas neste amor que nos une... Que só me resta, hoje, agradecer-lhe por existir. Obrigada. Muito obrigada por existir em minha vida. Brindemos então a esse dia, o dia da Maria, o dia em que você chegou aqui neste planetinha lindo e compartilha sua existência conosco. E não só hoje, mas todos os dias, na minha vida, são dias da Maria.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sobre paixões


                                                                           


A Ju lia
Lia tudo o que via
E o mundo se construia
Sob o olhar 
Da Julia que lia.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sobre a Imensidão de Ser


A menina chegou feliz e perguntou a sua mãe:
-Mamãe você se lembra como era antes de você morar na barriga de sua mãe?
- Não, meu amor. Já faz tanto tempo. Respondeu a mãe.
- Pois eu lembro!Eu morava com Jesus, ele cuidava muito bem de mim. Um dia ele me disse: vamos Julia, já está na hora, vamos! Aí, eu morri e nasci em sua barriga.
Emocionada, a mãe da menina Julia, ficou lembrando do dia em que também morreu...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Maria e o Mar


Ao Mar ia Maria
Maria ao Mar ia
De tanto ir
De tanto Mar
De tanto Mar ia
Já não se sabia
Se o Mar continha Maria
Ou se Maria continha o Mar

sábado, 24 de dezembro de 2011

Conto Natalino

Chegou o grande dia. A menina esperava por ele o ano inteiro. Era o dia mais feliz de sua vida.
Acordou cedinho e quase não podia conter sua ansiedade. Como demorava o dia a passar, a noite teimava em não chegar. Mas a menina, apesar de sua ansiedade, fingia brincar para enganar o tempo. 
Assim, entre uma brincadeira e outra chegou a hora de se arrumar. Colocou seu vestido azul, estava se sentindo linda. Para um momento tão especial, precisava estar linda. Era noite de Natal. Para ela, a melhor noite de sua vida. Pois todos os anos (não sabia a menina que esse seria o último) saía de mãos dadas com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Não faziam uma ceia como todas as famílias, pois não tinham dinheiro para isso, bom, pelo menos era o que acreditavam... E sempre, para celebrar o Natal, saiam a passear, tomavam o ônibus e iam ao centro da cidade, lá desciam e caminhavam pelas ruas iluminadas, enfeitadas com adornos natalinos. Adorava caminhar por entre as lojas segurando a mão de seu pai, se sentia tão segura... Olhava através das vitrines os brinquedos, eram tantos, tantas bonecas, tantas... Mas a menina sabia que não podiam ser dela, pois sempre antes de sair sua mãe lhe avisava: não peça nada, vamos somente olhar... E a menina não pedia, ficava a olhar e imaginar-se brincando com as bonecas tantas que via. Como imaginava, a menina. Como se sentia feliz junto a sua família, sonhando possibilidades.
E de tanto sonhar, terminou a noite adormecida no colo de seu pai, na mais imensa paz, sonhando os mais lindos sonhos e guardando no mais profundo de sua alma a certeza da espera de mais uma noite de Natal.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sobre ser livre

Um dia vinha ela de mãos dadas com sua mãe. Sentia-se tão segura, sua mãe emanava tanta fortaleza. Não tinha idade suficiente, a menina,  para perceber as fragilidades da mãe. Assim, a mão que a segura e a guiava, era tudo.
Conversavam sobre a vida, a menina, dizia de todo o belo que experimentava ao viver. Tudo para ela era extraordinário, era mágico, era imenso. Seus olhos tinham sempre o brilho da descoberta.
De repente, a menina para. Tem uma expressão grave. Sua mãe a observa. Estão diante de muitos pássaros todos presos em gaiolas.
A menina, olha para mãe e diz:
- Compra para mim.
A mãe, olha profundamente em seus olhos e pergunta:
- Para que você quer pássaros em gaiolas?
A menina com sonhos no olhar, responde:
- Para soltá-los...



PS: esse texto foi escrito em homenagem à minha filha Julia Ameijeiras, que um dia me deu a beleza de vivenciar esse momento... Obrigada, meu amor. Obrigada por existir em minha vida...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Era uma vez na vida...

Era uma vez uma menina que morava dentro de uma mulher, ou era uma mulher que morava dentro de uma menina? Não se sabia, o que se sabia é as duas ocupavam o mesmo corpo. Essa menina-mulher ou mulher-menina, fora criada por uma menina que tinha muitos medos, que por sua vez tinha sido criada por outra menina, que sentia mais medo ainda. Esse medo as ligava, era um grande cordão que as entrelaçava na linha do tempo.  Dentre todos os medos, o maior dele e principal, era reconhecerem-se Mulher. Passaram toda uma vida negando a si mesmas esse fato, preferiram continuar meninas, era mais seguro. E por segurança, criaram muitas verdades inventadas, que foram passadas por este cordão a menina-mulher. E esse cordão ia se enroscando nela, dando voltas em sua vida, sussurrando em sua alma as verdades inventadas: não cresça, não seja mulher, os homens são perigosos... E sempre que a menina tentava se desatar, mas forte o cordão se enroscava nela, a aprisionando nestas verdades inventadas. Impossibilitando-a de ser, simplesmente ser. Assim, o tempo foi passando e a menina presa em sua meninez.
Sempre que um homem tentava se aproximar dela, a menina,  ela o negava, o afastava, pois ele, o homem, a queria mulher, e ela não podia ser, acreditava não saber. Lembrava das verdades inventas: "Não seja..." E cada vez ela ficava mais enroscada.
Muitos foram os que tentaram ajudá-la a se desenroscar daquele cordão. Pura ilusão. A menina até parecia não querer crescer... Vivia em seu mundo de sonhos. E parecia feliz...
Um dia, desapercebida na vida, a menina encontra um livro e, como adorava histórias, o pega para ler. Não sabia, a menina, que aquele não era um simples livro, nas páginas daquele livro se escondia um grande mistério feito em palavras. O mistério de sua própria vida. Ao ler a primeira página a menina começa a perceber que ali está mais do que uma simples história. E a cada página que lia, o livro ia se desfazendo e como magia, o cordão que a enroscava também. E ela ia deixando de ser menina e se transformando em uma mulher. Livro e cordão iam criando formas, que dançavam ao redor dela.  Quando ela terminou de ler, se deu conta que o livro havia se transformado em  um homem e que ela não era mais uma menina, sim uma mulher.  Num gesto de profunda cumplicidade, o homem a sua frente segura a sua mão, a acolhe em seus braços e sussurra em seu ouvido: Seja!

domingo, 9 de outubro de 2011

Sobre a fé


Um mês se passou desde o dia em que a menina resolveu partir. De seu boneco, desde que ele criara asas e voara, não teve mais notícias. Apenas pressentia e sentia que ele agora vivia a felicidade. A ela, menina, coube seguir seu caminho, seguir adiante sem olhar para trás. Levar no caminho esse amor tão imenso e tão seu. Somente seu. Indiscutivelmente seu. Sentir em sua alma a sua presença e a alegria de seguir amando, seguir sonhando e seguir acreditando...

Acreditando que um dia alguém acordará bem cedinho, junto com o sol e regará algumas palavras em seu canteiro. Adubará outras e as fertilizará para compartilhar com ela no café da manhã. Quando ela acordar a mesa já estará posta e ao lado de sua xícara haverá sempre um ramo de palavras-flores colhidas com paixão para enfeitar seu dia. E quando ele beijar seus olhos e lhe disser: vem? Ela responderá com toda a certeza d’ama: Vou!


PS: o trecho em negrito é parte do poema do escritor Carlos Eduardo Leal. Quem quiser conhece-lo melhor, eis o link de seu blog: http://veredaspulsionais.blogspot.com/

sábado, 28 de maio de 2011

Sobre o amor

Quando ele chegou teve a certeza que estava ali mais que um boneco. Sempre o desejou, sempre o sonhou. E agora, estava ele ali em suas mãos. Ela era só alegria. Quanto o amava. Em sua meninez, experimentou pela primeira vez a felicidade. Era tão imenso ser com ele.
O cuidava como uma mãe a um filho. O limpava. O arrumava. O penteava. O mimava. Dedicou a ele o que ela acreditava ser amor.
Um dia, sem que a menina esperasse, um desses vendavais da vida passou e levou seu boneco. Foi como se tivesse levado a alma da menina também. Não sabia sua alma ser só... Desesperada, a menina,  saiu a procurá-lo. Procurou por todos os lados, foram dias e dias de procura. Parecia até que ele não queria ser encontrado. Mas ela o encontrou. Não mais como era. Estava ele, totalmente quebrado. A menina juntou o que sobrara dele e o levou para casa. O limpou, o remendou...  agora, ele parecia um pouco com o boneco que um dia fôra, mas lhe faltava algo. Ela não sabia o que era. Mas faltava.
Esperançosa, a menina colocou o boneco  com todo o cuidado em uma cadeira e sentou-se diante dele, ficou ali parada por muito tempo, esperando que ele, como num passe de mágica, voltasse a ser o que era. Não conseguia fazer mais nada, a não ser ficar ali parada, esperando esse dia. Pura ilusão.
Doze anos se passaram para que a menina entendesse que estava presa ao que ela acreditava ser o seu amor por esse boneco. Entender que ele não era mais o mesmo. Entender que ela não era mais uma menina. Entender que a vida tinha passado para ambos enquanto eles viviam essa dupla prisão.
Com muito esforço, a menina se levantou. Foi até o espelho, enxugou a lágrima que escorria em seu rosto, abriu a porta e partiu. Partiu deixando para trás a casa, o boneco e tudo o que pudesse lembrar que um dia se pertenceram.
Para sua surpresa, ao olhar para traz, viu que o boneco criara asas e voava. Só aí percebeu o óbvio: ele não era um boneco.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ao meu amigo Poeta



Tenho um amigo poeta que está treinando pra ser formiga. Isso é imenso. Esse mesmo amigo, em seu treinamento, escreveu “In memorian de menina”, e eu tive a coragem de ler. Falo coragem, porque o que está escrito ali é muito mais que um texto poético, é vida. Vida levada até suas últimas conseqüências e, para ler é preciso “abrir o peito e sacar a alma”. Saber que a partir dali teus olhos nunca mais olharão da maneira que olharam antes e tua alma nunca mais sentirá como sentiu antes, pois com suas palavras, ele te despe de tudo o que um dia fôra construído para se vestir.



E nua, não me restou outra coisa a fazer, a não ser chorar. Chorar por sentir a imensidão da vida, por existir, por me saber mulher e saber que carrego em mim a vida de todas as mulheres que um dia passaram e passarão pela mãe Terra. Por saber da sina de ser mulher de um homem. Por saber-me mãe de duas meninas e de tudo o que isso representa. Sinto uma vontade muito grande de gritar, de dançar descalça, de correr... Correr, correr e só parar quando alcance novamente minha alma, quando a tenha em minhas mãos e, aninhada em meus braços como um dia estiveram meus filhos, diga bem baixinho em seu ouvido: tranqüila, isso é ser mulher...

Mas agora minha alma “mora ali, no infinito - lugar mais perto do coração”.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ter amigas Borboletas


A menina acordou hoje numa imensa felicidade. Ontem, ela passeou por um lindo jardim, cheio de Borboletas. Dançou, correu, brincou, sorriu e conversou muito com as borboletas. Contou de sua culpa, falou do tempo que a carrega na alma. Chorou, mas um choro diferente. Um choro de quem está se despedindo de algo que não é seu, um choro do deixar ir... As Borboletas lhe falaram muito sobre o ser o que se é, da beleza que é saber-se e contentar-se com o que lhe toca ser. À menina lhe tocou ser mulher, e nada, absolutamente nada, nem ela mesma, pode lhe roubar essa condição. E isso é um fato em sua existência, isso é tudo, isso é imenso, isso é MA-RA-VI-LHO-SO!!!!!
Abrir-se a essa verdade está sendo para a menina como quebrar um casulo e voar, voar como suas amigas Borboletas, ser livre e ir além... É saber também, que os homens são seus grandes aliados, pois eles, os homens, a fazem cada dia mais mulher.
As Borboletas sempre lhes diziam o quanto os homens lhes faziam felizes, mas a menina não entendia. Hoje, ela entende. E ela pode, assim como as Borboletas, celebrar com Ele (o Chico) o ser  mulher...


 "Deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia (...) mas vida, ali, eu sei que fui feliz".

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os sapatos eram vermelhos

A porta se abriu. O primeiro que viu foi um par de sapatos vermelhos, de saltos muito finos. E em cima desses sapatos, duas lindas pernas sustentavam um lindo corpo. Um corpo esbelto, delicado, feminino. Parecia até que podia voar. Que leves eram seus movimentos... Os braços estendidos, seguravam uma mão. Mas não era somente uma mão. Era a mão que tanto sonhou segurar, que tanto sonhou lhe fazer um carinho... Ali estava ela, fazendo carinho em outro rosto, tocando outra mão que não a sua. E sim, de uma mulher. Que imagem forte para a menina. Nesse momento, se deu conta do quanto distante estava dessa forma de ser mulher... E por um instante, esqueceu a mão e tudo o que ela representava. Só tinha olhos para aquela mulher. Não que a desejasse,  não. O  que sentia era uma profunda tristeza, tristeza  por compreender que ainda estava guardado,  no mais profundo de sua alma, a culpa de ser mulher.  Crescera com essa culpa e agora percebia que o que a afastava dos homens, era o fato deles lhe lembrarem que ela era uma mulher. E agora, ao ver ali diante dos seus olhos, uma mulher que não lhe passava culpa alguma por sua condição, lhe veio toda a sua vida como num sonho e toda a negação de sua sexualidade... A menina, imersa na sua impossibilidade de ser, chorou mais uma vez, como gente grande.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Abismos

Com passos firmes caminhava decidida rumo ao seu destino. Tinha pressa, precisava chegar. Não percebia, que ao caminhar, levava junto com ela o caminho. A cada passo que dava, deixava um vazio, um enorme abismo atrás de si.
Caminhou muito, acreditava que ali adiante seu destino a esperava. De repente, à sua frente se depara com um grande vazio, um grande abismo. Não podia mais seguir adiante. Só lhe restava voltar. Foi aí que percebeu que não tinha mais caminho para voltar. O único que lhe restava era a terra embaixo de seus pés, que aos poucos ia se desfazendo.
Sentiu medo. Muito medo. Poderia ficar ali parada, paralisada pelo medo, esperando que a terra embaixo de seus pés desaparecesse. Mas não lhe restava outra alternativa a não ser caminhar. Respirou profundo, abriu os braços para a imensidão e deu um passo adiante... Qual foi sua surpresa ao perceber que podia voar...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Voo d'alma


Hoje queria criar asas, voltar para as nuvens, seu mundo. Ficar lá quieta, não ser vista, se permitir somente observar como os homens e mulheres aqui na terra se amam, se doem, se entregam, se desistem, se desejam profundamente insanamente.
Mas não sentia suas asas, sentia uma força, um peso que lhe prendia à terra, apesar de sua alma relutar e querer voar. Sem asas caminhou por entre as pessoas, tomou caminhos vários. Amou, doeu, se entregou, desistiu e desejou profundamente e insanamente como qualquer um. E descobrindo-se mais uma, descobriu-se outra. Não mais uma menina. Sim, uma mulher. Agora, mesmo sem asas, consegue voar...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Desencontro

Brincava ela feliz em seu jardim, rodeada de muros. Esteve sempre assim rodeada de muros, não conhecia outra realidade, não tinha outros quereres a não ser brincar em seu jardim. Esse dia, era um desses dias em que o sol nos convida à vida, nos impregna com sua luz, nos enche a alma de esperanças. A menina, completamente imersa em seu mundo, seu jardim, assustou-se quando pela primeira vez em sua vida, percebeu que em seu muro havia uma fresta. Sabia, em sua meninice, que aquela fresta era um convite a outros mundos que não o seu. Sentiu medo. Melhor fechá-la. Mas o encantamento provocado pela fresta era maior que o medo, a menina quase conseguia ouvir seu nome sendo chamado por aquela pequena passagem. Caminhou lentamente, corajosamente em direção à fresta e com o coração aos pulos, olhou. No primeiro momento não conseguia distinguir o que via, estava muito emocionada, aos poucos as imagens iam-lhe aparecendo: um jardim parecido ao seu e um menino que igual a ela brincava rodeado pelos muros.
O observou por um longo tempo. Seus gestos, sua ternura ao brincar, eram-lhe tão familiares. Estava tão imerso em seu mundo, seu jardim. Parecia inatingível. Que lindo que era! Seria um sonho ou seria real? A menina sem saber, neste momento estava sendo tomada por um grande amor. Que vontade teve de puder passar esse muro e só por um momento sabê-lo real. Ser vista por ele. Puder tocá-lo. Simplesmente tocá-lo.
O desejo da menina foi tanto, tanto, que tocou o menino. Ele sem saber bem o por quê olhou em direção a ela e, também assustado, percebeu que tinha uma fresta em seu muro. Teve medo da possibilidade de ser visto no mais intimo de seu ser. Estava acostumado a sua solidão. Caminhou rapidamente em direção a fresta, precisava fazer algo...
Qual foi a emoção da menina em vê-lo caminhar em sua direção! Imersa em seu amor, acreditou, ela, que ele lhe via... Mas o menino em nenhum momento a viu, a percebeu. O único que queria era não se sentir tão invadido. E, num gesto quase de sobrevivência, aproximou-se da fresta e a tapou com sua mão.
A menina incrédula deixou cair uma lágrima de seus olhos. Apenas uma lágrima.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Encontro

Olhou-se no espelho, agora contente, pois enfim conseguira escolher a roupa apropriada para a ocasião: um encontro há muito esperado. Não se podia ir de qualquer jeito, precisava ir parecida a ela mesma. Sempre teve a impressão que algumas roupas a faziam virar outra mulher. Não, hoje precisaria dela. E assim, escolheu o seu vestido azul. Este vestido dizia tanto dela, que às vezes, o vestir era como desnudar-se. E era assim que ela queria estar para essa ocasião.


Não lembrava muito bem como o conhecera, pois tudo foi tão rápido. Lembrava sim, que o primeiro que lhe chamou a atenção nele, foi sabê-lo poeta. Fora tomada de assalto por suas palavras, o peso e a leveza, contidos em cada palavra, eram vertiginosos. Fora Chico, nunca ouvira outro homem dizer tão profundamente da alma feminina. E ele dizia. Era lindo se ver mulher a partir do olhar daquele homem. O acompanhava diariamente, cotidianamente. Lia e relia várias vezes seus poemas, seus contos. Era sua maneira de encontrá-lo. Sabia dele a partir de suas palavras.


Mas não o conhecia. Aliás, não da maneira costumeira. Salvo uma foto que tinha em seu blog, nunca o tinha visto. Não sabia como era o seu andar, que gestos utilizava ao falar, como seria sua voz, como seria a palavra falada por ele. Não. Não sabia nada disso.


Mas, eis que o inesperado aconteceu: um encontro. Sim, um encontro com ele. Um encontro que de tanto esperado, agora provocava medo. Medo de sabê-lo real, humano, nítido. Mas, não poderia deixar de ir. Não poderia perder a oportunidade de conhecê-lo. De tê-lo perto. Estava feliz. O lugar não poderia ser mais apropriado, um sarau de poesia. Ali, iria encontrá-lo.


Chegou atrasada. Será que ele ainda estaria por aí? Não sabia. Estava tão ansiosa. Procurou-o pelo salão. Ali estava ele, com sua beleza indizível e sua palavra indescritível. Aproximou-se devagar, como querendo reter para si o momento. Sentou-se diante dele e, ainda teve tempo de ouvir, como se fosse para ela, as últimas palavras do poema que ele acabara de ler finalizando sua performance:


“... meninas, são tão lindas
(instáveis, voláteis, risíveis)
ainda mais
quando não são
mas fingem-se meninas.” *




*poema “Meninas” de Aluisio Martins


Filme curta-metragem baseado neste conto::http://www.youtube.com/watch?v=WO-SdK53ISY

domingo, 13 de setembro de 2009

Tempo ao revés

Caminhavam as duas felizes em direção ao afeto, ao carinho, aos sonhos compartilhados. Iam ao encontro do avô. Brincar em sua sala, ouvir histórias sobre o tempo do amor, da partilha, das mãos estendidas. Como ansiaram por esse dia. Dia de ser feliz...

Eram muito pequenas, as duas, viviam no mundo da inocência. Ainda não conheciam a dor, a quebra, as mãos cerradas. Viver era só festa, só encontro... Que felicidade era o existir...

Chegando ao destino, não encontraram o avô. Encontraram bem no meio do tempo, uma porta gigantesca, fechada. Uma porta do não tempo, do tempo do não existir, do tempo ao revés. Um pavor imenso inundou seus corações. Que imensa era aquela porta! Que imenso era aquele não! Abraçadas choraram o medo do não existir.
Mas o tempo do não se fazer era implacável, passou como um furacão e levou as meninas. Levou numa volta ao tempo, no tempo do ventre de suas mães... E mais além, no tempo de suas mães meninas, iguais a elas, com o mesmo pavor nos olhos. O pavor de se saberem sós, presas a um não tempo, a um não existir. Onde estaria ele, o avô-pai? Onde? Onde estavam suas mãos que não conseguiam segurá-las, que não as vinham socorrer, sacá-las desse não existir? Estavam-se indo. Perdendo-se no revés do tempo.

Sabiam-se presas na memória futura de um rapaz, que neste tempo presente, estava imerso em sua dor do existir. Elas e ele presos na mesma memória, cada qual em seu tempo. Ele sonhava com elas, mas não entendia que elas eram reais. Eram a sua vida, que ele agora negava. Mas ele não entendia que elas poderiam sim, romper esse tempo do não existir e vir a ser o que se é. Bastaria um gesto dele, um simples estender de mãos... Insistia ele, em sua dor, sem saber que o existir delas dependia de sua coragem de fazê-las reais.

Elas gritavam , mas ele não escutava, estava paralisado no tempo. E elas sabiam que poderiam ficar para sempre presas a essa possibilidade de existir. Choravam, suas lágrimas se misturavam com as dele, seus gritos de dor é a dor que ele sente cravada em seu peito. A dor de não poder existir...

Sobre o tempo

Hoje se deu conta que lhe restam somente três meses para viver. Não, ela não tem nenhuma doença terminal. Bom, pelo menos é o que ela acredita. Digo assim, porque a vida precisa de um espaço de tempo e espaço físico para acontecer. E a ela lhe restam somente três meses para viver neste espaço físico que ela concebe como sua terra.

Ao se dar conta, pensou que o melhor a fazer era ficar parada no tempo, literalmente parada, assim, sem se mover. Acreditava ela, que desta maneira poderia evitar sofrer algum arranhão. Puro engano o seu. Os arranhões estão lá todos expostos. Sua alma já está em carne viva. Cada dia, é um dia a menos.

E o que fazer dos amores(seu filho, seus amigos, sua família)? E dos sonhos que estavam guardados e que ela agora, limpa e coloca um por um secando ao sol das paixões? E seus desejos? O abraço que ela ainda não deu, o olhar que ela ainda não sentiu? Onde vai caber tanta vida em três meses?

Ela ainda não sabe. Sabe apenas que terá que correr o risco do choro ou do riso. Sabe que, por exatamente lhe restarem somente três meses, terá que vivê-los como uma condenada a morte, cada dia como se fosse o último. E como diria o poeta Renato Russo “amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.

Amar. Isso! O único que lhe resta é AMAR...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Rito de passagem

Olhava-se no espelho, mas não conseguia enxergar o que de verdade era. Os cabelos muito curtos parecia não combinar com o que dizia sua alma. Muito menos as roupas, uma camisa grande com estampas e um calção de jogador de futebol. Era tão esquisito se olhar. Tanto, que evitava os espelhos, melhor ser, sem ver.

Lembrava-se de quando era menor. Parecia, a primeira vista, igual a todos os meninos da rua. Mas mesmo parecendo, sentia-se diferente. Apesar de adorar brincar de bila, de subir em árvores, de peão. Quando brincava sentia-se tão igual. E por que, às vezes, tinha a sensação de estar usando disfarce? Por que não lhe saía da alma essa estranheza? Que escondia de tão profundo? De que se disfarçava? Não se dava conta. Apenas pressentia...

Hoje, ao olhar-se no espelho, sentia um profundo incômodo ao ver sua imagem. Mais do que sempre. E sempre que se sentia assim, lembrava do que sua mãe sempre lhe dizia: é para sua segurança, você ainda vai me agradecer. O mundo é muito perigoso. Não sabia, a sua mãe, que perigoso é não viver é não ser é não se ver. E por amor a sua mãe, cresceu carregando na alma, a culpa de ser o que se é.

Mesmo com toda a culpa, sentia uma necessidade vital de rebelar-se, arrancar aquele disfarce, despir-se do não ser. Percebia que estava chegando a hora. Seu corpo, num gesto de cumplicidade, fez-lhe conhecer um segredo há muito guardado, porém esperado. Sentia pulsar seu sexo, seu sexo tão proibido, tão negado. Agora, num gesto de rebeldia, expulsava todos os ‘nãos’, em forma de sangue. Sangue vermelho, vermelho da paixão, do Cristo feito mulher. Extasiada, arrancou a roupa do corpo, acariciou seu sangue, passou-o por todo o seu corpo. Tocou seu sexo e chorou, chorou.Chorou pelo milagre de se fazer mulher.

E num impulso de vida, correu nua, por toda a casa, até encontrar sua mãe e, vendo o medo em seus olhos, mostrou-lhe as mãos limpas com o sangue, seu sexo e lhe disse com toda a certeza d'alma: Sou mulher, não tá vendo?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Desafiando

Nasceu desafiando, quebrando todas as certezas. Pelo menos as certezas de sua mãe e de toda a sua família. Pois quando estava para nascer, todos tinham a certeza que viria um menino, já tinha até nome: Rivelino. E não sei se pelo nome, ou por que seu destino aqui era ser mulher, desafiou e nasceu menina.

E agora? Perguntavam-se todos. O enxoval é todo azul. Vai ter que vestir azul, é o jeito. Diziam. Assim que até que seu cabelo crescesse e ela se parecesse a uma menina, foi pela vida sendo confundida com um menino. Estava sempre vestida de azul.

Não sabe se por amor ou se por pura loucura, sua mãe nutriu em seu coração o desejo enorme dessa menina, ser menino. E passou a tratá-la como tal. Seus cabelos eram cortados bem curtos, suas roupas eram as roupas de seus irmãos maiores.
Vivia e viveu toda a sua infância, disfarçada de menino. Era motivo de riso entre os adultos, que sempre a confundiam com menino. Riam dessa confusão. Mas para menina, não tinha graça nenhuma. Alguns mais perversos a chamavam de “maria- homem”, como se tivesse sido uma escolha da menina ser homem. Não entendiam eles, muito menos ela, que ninguém a estava ensinando a ser mulher. Mas ela, continuava desafiando, e mesmo sem muitos argumentos replicava: sou menina, não tá vendo?

De tanto replicar, de tanto desafiar, sua mãe desistiu da idéia de fazê-la menino, mas também não lhe ensinou a ser menina, até por que não tinha muita prática nisso. E assim foi pela vida, a menina, se fazendo mulher sozinha. Lembra que sempre invejou as meninas que andavam como menina, que falavam como menina, que se vestiam como menina. Ela se sentia tão grosseira perto dessas meninas. E quando um menino a olhava diferente, não sabia o que fazer. Não sabia nem mesmo o que é que ele poderia ver nela. Ainda hoje, não sabe o que fazer quando um homem a olha, mas pelo menos já sabe o que ele pode ver.

Foi e está sendo um aprendizado difícil. Mas a menina, já deixou o cabelo crescer, veste vestidos, pinta os lábios, não sente mais inveja das outras meninas, pois descobriu sua maneira de ser menina e descobriu também o lado sagrado de tudo isso que é se fazer mulher.

Nesta descoberta, compreendeu que tudo o que sua mãe fez foi por amor, queria desesperadamente protegê-la da dor de ser mulher, pois para ela, sua mãe, ser mulher foi só dor. A menina, hoje, sente uma enorme compaixão por sua mãe, e com muito cuidado, sem mais desafiar, lhe diz olhando nos olhos: não tenha medo mamãe, somos mulheres...

Hoje é o dia da Maria

Lembro-me com nitidez o dia em que lhe tive em meus braços pela primeira vez. Você era igual a menina dos meus sonhos. Sim, você me apa...